A flauta germânica

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09/14

Muita gente pergunta qual flauta doce é “melhor” ou mais adequada: a barroca ou germânica. Quero esclarecer com este artigo as razões para não utilizar a flauta germânica, nem com crianças, nem com adultos. Primeiro vamos às diferenças:

Barroco Germânico
A nota fá tem dedilhado de forquilha A nota fá tem dedilhado simplificado
Notas como Fá # e Sol # tem dedilhado mais simples Estas notas tem dedilhado mais complexo, e geralmente são desafinadas
A flauta possui sonoridade mais equilibrada, e timbre mais aveludado Sonoridade desequlibrada, e afinação ruim

Podemos perceber logo de início que aquilo que pode parecer uma vantagem na flauta germânica (o dedilhado da nota fá “facilitado”) traz consequências sérias na sonoridade de todo o instrumento, tanto no que concerne à afinação, quanto ao timbre, quando comparados à flauta barroca que é muito melhor.

E para quem trabalha com crianças, a flauta germânica pode inclusive prejudicar o seu desenvolvimento musical. Quando analisamos a facilidade com que as crianças aprendem nuances sonoras sutis, como por exemplo o sotaque de sua língua materna, podemos imaginar o quanto seu desenvolvimento musical pode ser prejudicado quando esta criança usa um instrumento sabidamente desafinado. Ao usar este instrumento ruim, ela aprende que o desafinado é afinado e, assim, deixará de perceber os intervalos corretamente.

Um pouco de história

Em meados de 1920 – 1930, quando a flauta doce estava começando a ser pesquisada depois de um longo período esquecida, um alemão que tocava flauta transversal teve contato com uma flauta doce histórica, produzida no séc. XVIII, ou seja, uma flauta barroca. Ao tentar tocar esta flauta, percebeu que a nota fá não era “afinada” como ele esperava, mas ele não se deu conta que o dedilhado desta nota na flauta doce era diferente do dedilhado que ele já estava acostumado na flauta transversal. Como ele sabia construir instrumentos, alterou o diâmetro dos furos para que o fá pudesse ser tocado conforme ele já estava acostumado. Desta forma nasceu o dedilhado germânico (ou alemão).

Algumas pessoas argumentam que ele sabia exatamente o que estava fazendo, pois tinha interesse em facilitar o estudo do instrumento para crianças que estudavam flauta doce e que assim pudessem mudar de instrumento e tocar flauta transversal, clarineta ou oboé no futuro, porém este argumento é muito fraco pois, embora sejam parecidos, cada um destes instrumentos têm dedilhados diferentes.

A mudança no diâmetro dos furos trouxe uma mudança acústica nas novas flautas [germânicas], que quando comparadas com as flautas barrocas, têm o timbre mais claro e áspero além de geralmente desafinadas, enquanto as barrocas costumam ter som mais homogêneo e escuro, e mais afinadas. Podemos também dizer que isso afetou a estabilidade das notas, que é bastante ruim nas flautas germânicas e muito melhor nas barrocas, isto é, as germânicas “guincham” com muito mais facilidade que as barrocas.

Além das mudanças no som, isto trouxe outras complicações: ao alterar os furos para facilitar a nota fá, o dedilhado de outras notas também mudou. Tanto o fá # como o sol # tiveram seu dedilhado alterado para algo mais complicado.

Como distinguir uma flauta germânica da barroca?

Barroco ou GermânicoEncontrei a imagem acima no site da Yamaha, mostrando como distinguir uma flauta barroca (à direita) de uma germânica (à esquerda). Uma mudança aparentemente pequena no instrumento, mas que causa uma grande mudança na qualidade sonora.

“Ainda bem que o dedilhado germânico nunca foi largamente utilizado fora da Alemanha, Áustria e Suíça. Mesmo nestes países, as flautas germânicas tem sido deixadas de lado nos últimos 50 anos devido ao aumento da percepção das falhas acústicas destes instrumentos. Relativamente, são pouquíssimos professores que continuam a usar estes instrumentos. Alguns fabricantes europeus, que no passado faziam flautas com ambos os dedilhados, nos últimos anos reduziram a produção dos instrumentos germânicos, e apenas disponibilizam flautas germânicas em um ou dois modelos mais baratos e voltados apenas para estudantes iniciantes”.
Trecho retirado do artigo “Sistemas de dedilhados na flauta doce – o bom, o mau e o feioso”
fonte: http://www.aswltd.com/finger.htm
Tradução: Gustavo de Francisco

Até agora, falamos apenas de argumentos técnicos e musicais, mas e o preço das flautas? Pois bem, eu pesquisei em lojas virtuais, e não existe diferença de preço entre as flautas barrocas e germânicas. Se o preço é o mesmo, não há razão para comprar flautas germânicas, pois estas são piores em todos os sentidos.

Resumo

A flauta germânica tem a nota fá “simplificada”, mas para isso tem seu som piorado e outras notas mais complicadas quando comparada com a barroca. Se pretendemos fazer música boa aos nossos ouvidos, precisamos procurar o melhor som possível, por isso devemos deixar de lado qualquer instrumento que não seja adequado a este objetivo. Se a flauta barroca tem som melhor e mais afinado que a germânica, devemos escolher a barroca, sempre.

Outras curiosidades

Além do dedilhado barroco (inglês) e o dedilhado germânico (alemão), existem flautas doces com outros padrões de dedilhados. O que chamamos hoje de dedilhado barroco, é o dedilhado mais próximo do que era usado nas flautas doces barrocas, ou seja, as flautas produzidas nos séc. XVII e XVIII, porém estas flautas históricas geralmente tinham os furos menores, de forma que algumas notas tinham dedilhados diferentes dos padronizados hoje em dia.

Podemos separar então os dedilhados em 4 grandes categorias, sendo as duas primeiras as mais comuns encontradas nas flautas de fábrica, mas é importante saber que existem flautas, geralmente feitas por luthiers, que usam outros tipos de dedilhado:

  • Germânico (ou alemão) – adaptação moderna alemã do dedilhado barroco histórico.
  • Barroco (ou inglês) – adaptação moderna inglesa do dedilhado barroco histórico. É aceito como padrão mundial hoje em dia.
  • Barroco histórico – encontrado nas flautas históricas barrocas ou cópias destes instrumentos (Hotteterre, Denner, Bressan, Rotemburgh, etc). O dedilhado varia ligeiramente de instrumento para instrumento.
  • Renascentista – encontrado nas flautas históricas anteriores a 1650, modelos praetorius, bassano, kynseker, etc. O dedilhado pode variar de instrumento para instrumento.

É possível consultar o dedilhado de vários modelos de flauta doce no site www.recorder-fingerings.com.

17 Comentários para "A flauta germânica"

  1. Obrigada pela matéria, muito esclarecedora. Trabalho com musicalização infantil em comunidades usando a flauta doce. Os alunos já tinham a flauta germânica, a qual tenho utilizado, mas já tenho planos de tentar substituí-las pelas barrocas!

    • Essa é a melhor coisa que você faz, pois as flautas germânicas são bem ruins, além de não serem apropriadas ao repertório histórico do instrumento. Grande abraço, e boas aulas!

  2. Artigo muito bem escrito! Como mencionou a Maria Rita, esclarecedor de uma das maiores dúvidas daqueles que verdadeiramente querem ingressar no mundo da flauta doce. Muito possivelmente a onda de flautas doces germânicas seja uma das maiores razões pra muita gente achar que flauta doce serve mais (e somente) para uma iniciação musical. Natural, instrumento de difícil afinação e de dedilhado mais complexo (salvo talvez para uma primeira aprendizagem na escala diatônica no modo maior), acaba levando a outros instrumentos (ou pior, acaba afastando o aprendiz da música logo após aquelas primeiras sopradas básicas). Parabéns também pelo belo portal! Material de primeira!

  3. Saudações,
    meus filhos irão iniciar aulas de flauta na escola e a professora de música pediu a flauta doce soprano germânica. Meu garoto de 6 anos tem um “bom ouvido” para música e pelo seu artigo, entendi que a germânica é inferior à barroca. Pensei em comprar uma germânica para as aulas e uma barroca para ele treinar. Será que ele irá se confundir?

    • Olá Miriam,
      Recomendamos conversar com a Professora, pois ela está ensinando um instrumento (dedilhado germânico) que não é utilizado em nenhum estudo sério com flauta doce. Se seu filho gostar de tocar flauta doce com as aulas da escola, e depois, decidir estudar seriamente o instrumento, ele terá problemas para mudar para a flauta doce barroca. Vale a pena conversar sempre. Não recomendamos fazer uso de dois instrumentos com dedilhados diferentes no início do estudo do instrumento. Contudo, o problema da flauta germânica não consiste apenas na diferença de dedilhado. Abraço

  4. Pingback: A flauta doce nas escolas: críticas e soluçõesFlauta doce Brasil por Quinta Essentia Quarteto

  5. infelizmente minha professora é fa da germanica e recomenda a todos os seus alunos esse modelo. vou comprar uma barroca o mais rapido possivel

  6. Gostaria de saber o por que então da fabricação da flauta germânica? Por que não tiram de linha?

    • As fabricas estão mais interessadas no mercado e nos lucros nas vendas do que com a qualidade dos instrumentos. Enquanto houver pessoas desinformadas e com baixa expectativa de qualidade sonora que queiram comprar flautas germânicas, haverá algum fabricante oferecendo estes sub-instrumentos para suprir esta demanda.
      Desta forma, estes fabricantes ganham dinheiro com a falta de informação, pois oferecem instrumentos ruins e de baixo custo, praticamente um brinquedo musical e não um instrumento musical, e vendem como se fosse um instrumento musical excelente.

  7. Ola, gostaria de uma indicação de método de ensino para crianças de 7 a 10 anos, com figuras (desenhos) e iniciação de leitura de partitura.

    • O Quinta Essentia recomenda que professores façam a capacitação no método Suzuki, através de vários cursos de capacitação de professores que são oferecidos em todo o Brasil e também no exterior.
      A eficácia do método está justamente na capacitação dos professores e na maneira de trabalhar, e não apenas no material (livro e CD).
      Leia o artigo para saber mais:
      Método Suzuki de flauta doce

  8. Olá Gustavo, muito esclarecedor. Após estes comentários (muito bem escrito) começo a entender melhor as diretivas do grupo: Flauta Doce Brasil. Eu comecei em uma Soprano Germânica, passei para uma Contralto Germânica e AINDA BEM que resolvi comprar há alguns anos uma Soprano e uma Contralto Barrocas, mesmo com elas em mãos, havia sempre uma recusa em mudar para elas, mas finalmente, com o passar do tempo e a ajuda de um simples Afinador da Dolphin, comecei a perceber as “diferenças” Foi difícil, quase uma luta, mas fui me habituando pouco a pouco e finalmente abandonei de vez as Germânicas; não sinto falta delas atualmente. Agora minha nova luta é me dedicar mais, aprender a ler as músicas por partituras e abandonar de vez as “notinhas” como me foi ensinado nas poucas aulas que tive. E assim que possível, substituir a minha Contralto de resina por uma de madeira (de boa qualidade). Agradeço por sua excelente matéria. Edison Ferraz

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