Flautas secando e escorrendo o excesso de óleo

Devo passar óleo nas minhas flautas doces? Como devo fazer?

12/

04/13

Este assunto é controverso, pois ouvimos muitas pessoas dizer coisas muito conflitantes a este respeito. Algumas coisas que já ouvi pessoas comentarem:

  • Não devemos passar óleo nas flautas, pois a madeira já foi tratada e o óleo pode estragar a madeira;
  • Devemos passar óleo todos os dias, sempre lustrando a flauta com um pano ou pedaço de couro embebido em óleo;
  • Óleo de amêndoas é o ideal;
  • Óleo de semente de uvas é melhor, pois é mais fino;
  • Óleo de linhaça é melhor, pois não deixa resíduo;
  • Óleo pode inchar a madeira e fazer os encaixes do instrumento racharem;
  • Passo óleo nas minhas flautas de plástico, o flautista Mr. X, que toca no grupo Y ensemble que disse que era importantíssimo!;
  • Não passo óleo nas flautas pois me falaram que podem incendiar sozinhas;
  • Um grande segredo para melhorar o som da flauta é passar muito óleo no pé da flauta;

Obviamente não vou lembrar de tudo que já ouvi a respeito, e vou tentar esclarecer aqui me baseando em duas diretrizes:
1. a ciência e,
2. minha própria experiência.
De qualquer forma, não pretendo ter a verdade absoluta sobre este assunto.

A escolha do óleo

Primeiramente, devemos falar sobre qual óleo deve ser escolhido. As opções são inúmeras, por isso vou comentar aqui os que já ouvi dizer serem usados em instrumentos de sopro de madeira:

  • Óleo de amêndoas
  • Óleo de gergilim
  • Óleo de semente de uvas
  • Azeite de oliva
  • Óleo de canola
  • Óleo de soja
  • Óleo de linhaça
  • Óleo mineral
  • Óleo Johnsons (aquele para bebês)
  • Óleo de terebentina

Dentre estes óleos, podemos dizer que existem dois tipos:
1. os óleos secantes (a maioria dos óleos vegetais estão nesta categoria),
2. os óleos não-secantes (óleos minerais). Os óleos que não secam costumam ser mais inertes quimicamente quando comparados com os óleos secantes.

Novamente, não tenho a solução ideal para todos os flautistas, mas como as opções são inúmeras, vamos discutir primeiramente o objetivo de passar óleo no instrumento.

A madeira é basicamente constituída de dois elementos: a celulose e a lignina ou lenhina. São pequenas partículas de celulose “coladas” entre si por partículas de lignina, formando uma estrutura parecida com uma parede de tijolos. A celulose absorve água com facilidade mas ignora o óleo. A lignina absorve óleo e ignora a água.

Quando a madeira recebe uma camada de óleo, a lignina recebe o óleo enquanto a celulose ignora, da mesma forma que uma esponja recebe um líquido qualquer. Depois das primeiras camadas de óleo, a madeira já não o absorve mais. A sensação que temos dessa absorção contínua, é falsa, o que acontece é simplesmente a secagem do óleo da superfície da madeira.

Quando um óleo não-secante é usado, ele é simplesmente removido depois de uma ou duas limpezas, a única porção de óleo que restará, estará contida em alguns poros superficiais da madeira.

Quando um óleo secante é usado, a situação é bem diferente. Ao secar, o óleo deixará uma fina camada de um polímero na superfície da madeira (processo de polimerização), podemos chamar de verniz, que a cada nova camada se aglutinará à camada anterior. Quando limpamos o instrumento com um pano, parte deste verniz se solta e faz com que a superfície fique porosa, de forma que a água líquida não consegue penetrar na madeira, porém o vapor e o ar consegue penetrar, uma situação desejável, pois desta forma, a madeira consegue se adaptar às mudanças de clima, umidade e temperatura.

Após vários ciclos, esta camada de verniz se torna muito lisa e polida, e pode fazer variar o diâmetro interno do instrumento, que traz uma sutil variação no timbre do mesmo. Isto é algo positivo ou negativo? Embora muito difícil de afirmar, provavelmente é positivo, pois tenho visto muitos luthiers (construtores de instrumentos) passando um verniz muito forte e liso na cabeça das flautas.

Nos casos de flautas envernizadas internamente, não parece razoável a necessidade de passar óleo frequentemente, mas talvez seja interessante passar ocasionalmente um óleo não-secante simplesmente para manter a limpeza do instrumento.

Nas flautas não envernizadas parece razoável passar um óleo secante com certa frequência, para que a camada de verniz seja formada e proteja a madeira.

Em minha experiência pessoal, já usei óleo de amêndoas, gergelim (cru, não torrado), semente de uvas e linhaça, além de ter misturado um ou dois tipos (todos são óleos secantes). Tenho contato com pessoas que usaram todos os tipos mencionados acima.
O que percebo é que o óleo de amêndoas costuma deixar o instrumento ligeiramente grudento com o tempo. O óleo de gergelim é mais fino e não deixa este aspecto, além de intensificar o cheiro da madeira. O óleo de semente de uva (mais comum na Europa que no Brasil) é parecido com o óleo de gergelim, porém tem menos cheiro. O óleo de linhaça é o que tenho usado de alguns anos para cá.

Um aspecto que é importante para muitos flautistas é o cheiro ou gosto do óleo, afinal ao tocar colocamos a flauta na boca e isso pode ser algo que realmente interfira em seu bem estar ao tocar. Por uma questão de gosto pessoal, pode ser que uma pessoa goste de determinado óleo e não goste de outro. Eu pessoalmente evito qualquer tipo de óleo saborizado ou com aroma, por razões óbvias. É muito comum encontrarmos óleo de amêndoas com cheiro de perfume, evite! Da mesma forma, alguns escolhem passar azeite de olivas virgens apenas pelo cheiro.

Já perguntei sobre isso para vários luthiers, construtores de flauta doce, oboé, e outros instrumentos de sopro. As respostas são diversas, mas vou comentar uma que fez mais sentido para mim:

Gustavo e Toshi Hasegawa - Out. 2010Em 2010, levei meu oboé barroco para uma revisão com o luthier Toshi Hasegawa. Eu passo óleo no meu oboé com a mesma frequência que passo em minhas flautas doces. Chegando lá, quando o Toshi viu meu instrumento me deu uma bronca, pois eu havia passado óleo de amêndoas nele (naquela época eu já usava óleo de linhaça há cerca de 1 ano), e me proibiu de passar óleo de amêndoas novamente, com o argumento que este óleo se deposita nas paredes internas e muda o diâmetro do instrumento (conforme disse acima), e que deveria passar o óleo de linhaça, pois a linhaça não chega a mudar o diâmetro interno do instrumento.

A partir de então, oficializei que só passaria óleo de linhaça em meus instrumentos. Este óleo é facilmente encontrado em supermercados e/ou em lojas de produtos naturais.

Outra precaução: algumas pessoas são alérgicas a alguns óleos. Recentemente li em um fórum estrangeiro que alguém estava com alergia de suas flautas, e o que causava alergia era o óleo usado: óleo de linhaça cozido, com extração química (imagino que seja aquele usado em pintura a óleo). Por isso, use sempre algum óleo comestível, pois desta forma terá certeza que não causará mal algum, exceto em caso de alguma alergia grave.

Devo passar óleo com qual frequência?

Algumas pessoas dizem que devemos passar óleo toda semana, ou mesmo todos os dias, e outras que devemos passar apenas 1 ou 2 vezes ao ano.

Se passamos óleo muito frequentemente, o óleo não chega a se polimerizar ou formar a camada de verniz, e permanece na forma líquida na superfície do instrumento. A cada limpeza, o óleo sairá no pano, porém é reposto regularmente. Para esta abordagem são recomendados óleos que se polimerizam menos, como por exemplo óleo de coco ou azeite de olivas.

Se passamos óleo menos frequentemente, cerca de 2 a 3 vezes ao ano, o excesso de óleo é removido em seguida, e o óleo se polimeriza (cria a camada de verniz) em cerca de uma semana, porém este processo de polimerização continua por muitos meses depois da aplicação do óleo. Durante este tempo, a limpeza vai remover o óleo que ainda estiver líquido, mas vai polir a camada de verniz que já estiver formada. Para esta abordagem, é recomendado o uso de óleos com alto teor de polimerização, como óleo de amêndoas ou linhaça.

É importante não misturar entre as duas abordagens, com o risco de ter uma flauta melequenta ou sem proteção.

Por que passar óleo?

Depois de tudo o que apresentei anteriormente, faço aqui um resumo das razões de passar óleo em todos instrumentos de sopro de madeira:

  • Protege o instrumento da umidade inerente à condensação durante a prática;
  • Protege o instrumento de fungos, pois evita que a umidade se acumule na madeira;
  • Facilita a limpeza do instrumento, quando esta for necessária;
  • Evita que se abram rachaduras na madeira;
  • Ajuda que o instrumento seja mais estável referente à variação do clima;
  • Mantém o instrumento mais bonito e brilhante;
  • Protege sem impedir a “respiração” da madeira, pois esta permanece porosa;

Como passar óleo na flauta:

Como já mencionei, eu uso óleo de linhaça em meus instrumentos, e por isso passo óleo cerca de 3 vezes ao ano. Tenho especial cuidado antes de viagens longas, quando os instrumentos sofrerão com despressurização em viagens aéreas ou mudança brusca de clima; nestes casos eu passo óleo 1 ou 2 semanas antes da viagem.
Segue uma lista do que vamos precisar para esta tarefa:
Materiais para aplicar óleo

  • Duas toalhas velhas ou pano de algodão (pode ser uma camiseta velha);
  • Um pincel pequeno ou um limpador de cachimbos;

e

  • Um pedaço de tecido pequeno – tecido de algodão é melhor;
  • Uma vareta de limpeza (normalmente acompanha o instrumento novo);

ou

  • Uma escova com cerdas de nylon macio para limpeza de tubos, com diâmetro apropriado ao instrumento. (A Moeck e a Mollenhauer comercializam kits com estas escovas);

Primeiro passo:

O instrumento precisa estar completamente seco antes de colocarmos qualquer óleo. Isto significa que a flauta deve estar sem ser tocada por pelo menos 12 horas, em um ambiente seco e arejado.

Como envolver as sapatilhasAs flautas que possuem chaves devem ter todas as sapatilhas protegidas do contato do óleo. Isso pode ser feito envolvendo-as com filme de PVC (aquele transparente usado na culinária), ou desmontando cuidadosamente as chaves antes de começar a manipular o óleo. Caso o óleo se acumule nas sapatilhas, estas ficarão duras e ressecadas e perderão a característica de vedar bem os furos. Também pode acontecer das sapatilhas ficarem grudentas, e comprometer o funcionamento do mecanismo.

Flautas secando e escorrendo o excesso de óleoPreparar um espaço onde as flautas possam secar, em posição vertical, escorrendo o excesso de óleo.

Segundo passo:

Devemos passar óleo no pé e no corpo da flauta, por dentro e por fora, de forma que o óleo forme uma fina camada por toda a superfície da madeira, inclusive dentro dos furos. Use uma das toalhas ou pano de algodão para passar óleo externamente, e mantenha o outro seco e limpo.

Regiões que absorvem mais óleoTodas as partes da madeira onde as fibras terminam, têm uma maior absorção de líquidos. Isto acontece na parte de baixo do pé, no bocal, na janela, nas decorações das juntas e na superfície interna dos furos. É muito comum que estas partes fiquem secas com maior rapidez após a aplicação do óleo, por causa disso, a aplicação nestas partes deve ser feita em maior quantidade.

Anéis de osso e marfimFlautas com anéis ou decoração de osso ou marfim devem ter as partes de osso ou marfim protegidas do óleo, pois este fará com que estas partes fiquem amareladas ou ligeiramente translúcidas. Exceto à aparência, o óleo não causa nenhum problema no osso ou marfim.

 

Encaixe com linhaDevemos evitar o excesso de óleo nas juntas feitas com linha. Podemos passar óleo, mas nunca deixe a linha enxarcada com óleo, pois a linha incha com o óleo e pode fazer rachar a junta.

A cabeça da flauta

Existem alguns cuidados especiais ao passar óleo na cabeça da flauta, que é responsável pela produção do som no instrumento.

Bloco - chanfro

Bloco - curvaO bloco da flauta, aquele pedaço de madeira diferente do resto da flauta que fica no bocal, normalmente feito de cedro rosa, além de ser responsável por guiar o ar até a janela e pela produção do som, também é responsável por absorver o excesso de água que condensa dentro do canal da flauta, evitando assim que a flauta fique entupida. Por esta razão, devemos tomar muito cuidado para que o óleo não entre em contato com o canal, nem com o bloco nas proximidades do canal, onde existe um chanfro. Este chanfro pode ser chamado de “alma” pois qualquer variação muda completamente o som do instrumento.
Por isso, ao aplicar óleo na cabeça devemos fazer da seguinte forma:

  • Aplicar o óleo externamente, sem que o óleo entre no canal da flauta ou na janela;
  • Aproveite este momento para esfregar o bocal da flauta, no local onde encostamos os lábios, para limpar a madeira que normalmente fica ressecada nesta região. Não use muito óleo, evitando assim que ele escorra para o canal.

Óleo na cabeça

  • Com a cabeça na posição vertical e bocal para cima, aplicar o óleo internamente, de forma que o óleo não toque o bloco ao escorrer pela madeira;

 

 

 

  • Óleo na janelaCom um pincel ou com o limpador de cachimbo, aplicar o óleo na janela da flauta fazendo o acabamento delicado, sempre evitando que o óleo entre no canal ou toque a madeira do bloco;

Terceiro passo

Deixar as partes desmontadas, na posição vertical, por pelo menos 12 horas, mas o ideal é manter assim por 24 horas.

Após cerca de 30 minutos ou uma hora após passar o óleo, verifique se a flauta já está seca. Caso esteja seca, repetir o passo 2. Isso é comum de acontecer quando o instrumento é novo e necessita de mais óleo, pois a madeira ainda está muito seca e absorveu pouco óleo. Após uma ou duas aplicações, já não é mais necessário.

Se após 30 minutos ou 1 hora a flauta permanecer visivelmente oleosa, basta deixar ela descansar por mais 23 horas.

Quarto passo

Limpando o excesso de óleoAgora é necessário limpar todo excesso de óleo que tenha restado no instrumento. Para isso, use a toalha seca e limpa, ou o pano de algodão que estava separado.
Nunca esqueça desta parte. É extremamente importante limpar o excesso de óleo, pois se não fizer, a flauta pode ficar grudenta e rançosa.
Esfregue o pano limpo por toda a superfície externa da flauta, que ficará com um aspecto brilhoso e limpo. Normalmente a madeira fica ligeiramente mais escura do que antes, com veios mais vivos e bonitos.

Eu não costumo limpar o óleo da parte interna da flauta, pois este será limpo toda vez que eu secar o instrumento após tocar.

Quinto passo

Protegendo as sapatilhas do óleoPara os instrumentos que possuem chaves, devemos colocar as chaves de volta, e manter um guardanapo de papel entre a madeira e a sapatilha. Este guardanapo é responsável por secar o excesso de óleo remanescente, e evitar que a sapatilha absorva este óleo.

Eu costumo manter guardanapos cortados na caixa dos meus instrumentos que possuem chaves, assim, ao guardar as flautas na caixa, coloco os guardanapos sob as sapatilhas. Após alguns dias, os guardanapos costumam ficar oleosos ou amarelados, neste momento eu sei que devo trocá-los por um guardanapo novo.

Conclusão

É muito importante cuidar de sua flauta doce, e para todas flautas de madeira, o óleo faz a proteção da madeira contra a umidade e outras coisas.

Não é necessário passar óleo nas flautas de plástico!!! A não ser que queira ter uma flauta grudenta ou escorregadia.

The good oil

Em anexo coloquei um artigo (em inglês) de onde eu tirei as informações mais científicas sobre a escolha do óleo. Vale a pena ler o artigo original, e tirar suas próprias conclusões!
Em breve um novo artigo sobre como devemos limpar nossa flauta!

5 Comentários para "Devo passar óleo nas minhas flautas doces? Como devo fazer?"

  1. Gustavo,
    Parabéns pelo seu trabalho, uma verdadeira missão de Bodhisattva

  2. …elucidando nossas mentes sobre os mistérios da flauta doce. Muita luz no seu caminho!

  3. What is the reason for oiling the outside of the recorder when it has been varnished or lacquered with a substance that prevents the oil from touching the wood? The oil cannot penetrate through the finish.

    • nowadays, there are not so many recorders that are varnished, but it was a common practice in the past.
      In this case, the oil can make your instrument little bit more shiny, with a recently finished looking, but the oil itself will not be important to maintain the wood away from the humidity.

  4. Before oiling your recorder it should be thoroughly dry. Never try to oil a recorder you have just played on, since dampness will then remain in the wood. You can protect the key pads of your instrument from oil by covering the fingerholes from the outside with some tissue. The most important part that has to be oiled is the bore of the instrument since most of the moisture collects here.

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