Como é a sua relação com a música? Sucesso e fracasso musical

20/

09/16

“Um verdadeiro artista é uma pessoa que reúne em si, sentimentos, pensamentos, e ações belas e esmeradas” (S. Suzuki, 1983). E por esta razão, precisamos zelar para que nossos bons sentimentos não caduquem.

É muito ruim começar um texto apresentando aspectos negativos de um problema, mas quem nunca viu professores frustrados em ensinar; músicos burocratas, aqueles que tocam para ganhar dinheiro apenas, uma relação puramente business, sem compreender que o dinheiro é a consequência do trabalho; músicos que não gostam de tocar (ou pelo menos demonstram isso, pois não acredito ser verdade); músicos que prejudicam seus colegas de profissão, pois têm medo de não ter espaço para o trabalho (talvez isso deva-se ao fato de achar que a sua felicidade ou o seu sucesso depende do outro e não de você mesmo); músicos que não sabem compartilhar (faço música do meu jeito!); músicos que não sabem construir um trabalho, pois o dia a dia da profissão o cansa (sim, pois o sucesso é fruto de MUITO, muitooo trabalho!); músicos que têm medo de palco (são muitos, até aqueles que enganam…); músicos que brigam com seus instrumentos até o extremo de largar a profissão ou instrumento e fazer outra coisa da vida, deixando de vez a relação com a música, como uma briga afetiva de qualquer relacionamento; professores que não ficam felizes com o sucesso de seus alunos na música; colegas de profissão que falam mal do trabalho de outros colegas sem avaliar que eles não estão fazendo nada pelo seu próprio trabalho, não fazem nada por si mesmos…

Enfim, se você se percebeu em algumas dessas situações, então vale a pena buscar a sua relação positiva, vale a pena salvar a sua relação com a música. E de que maneira fazer isso? É esta a reflexão deste texto!

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Sucesso e fracasso musical

No post anterior aqui, mencionei algo sobre a minha relação com a música, e hoje resolvi compartilhar os meus pensamentos com quem lê esses textos, com quem sempre acessa esse blog em busca de reflexão sobre a prática musical.

Posso começar citando aqui vários tipos de relação com a música que as pessoas estabelecem, mas a relação que me põe a escrever este texto é aquela com a qual lido todos os dias:

na minha profissão de flautista – em meu trabalho bem-sucedido com o meu quarteto de flautas, meu grupo de música de câmara;

na minha profissão de professora, de educadora musical – com a relação que vejo ser construída com cada um de meus alunos; e

na minha profissão de capacitadora de professores de música – com as reflexões e indagações deles em todos os cursos de Filosofia Suzuki que tenho ministrado nos dois últimos anos.

Todas essas situações trazem a mesma relação com a música, aquela que construo ou construí com o meu instrumento, uma relação afetiva. Essa relação afetiva tem diversos desdobramentos, bem-sucedidos ou não. Relacionados com motivação, inspiração, bons resultados, e porque não dizer, com a felicidade.

Sim, esse post é para os músicos, educadores musicais, professores de música, estudantes de música, solistas, cameristas, regentes, maestros, cantores, de qualquer idade em qualquer momento da construção dessa relação com a música, não apenas para profissionais (para aqueles que decidiram pela profissão, pois talvez seja tarde! ai!), mas para TODOS.

Quando um aluno de 7 anos me diz: “Não consigo parar de tocar!”
Quando um pai de um aluno de 6 anos me diz: “Não sei o que ele vai escolher ser quando crescer, não tenho essa certeza, e isso agora não tem importância para mim. A única certeza que tenho, e que vejo todos os dias, é que a flauta doce nunca mais sairá da vida dele!”
Quando um professor de música me diz: “eu odeio dar aulas, eu conto os minutos para terminar essa relação”
Quando um colega músico me diz: “pra quê ensaiar tanto? Quando tiver o cachê confirmado, nos vemos!”
Quando um outro colega músico me diz: “o público não é importante, o que importa é o que quero tocar!” E esse passa a vida reclamando de não ter sucesso em seu trabalho.
Ou mesmo quando ainda, o sonho ‘na lalala land’ de todo o músico seja passar o dia estudando em seu quarto para quando um dia, alguém, um bom produtor musical com um baita patrocínio, baterá em sua porta dizendo: “Nossa, como você toca bem! Quero produzir você! Fique aí estudando, que voltarei com as datas das turnês e concertos que prepararei para você”! Sonho… só sonho… Ah! E existe o mito (e na verdade o pior erro dos músicos) de que você não pode falar bem do seu trabalho. Outra pessoa deve dizer, então: 1. muitos passam a vida frustrados, não reconhecem o próprio trabalho, não se valorizam; 2. muitos gastam energia falando mal do trabalho dos outros.

Os comentários acima, positivos e negativos, e tantos outros que me deparo no meu dia a dia, ilustram apenas duas fases do processo de construção de uma relação com a música:

1. quando a relação é afetiva, bem-sucedida, positiva;
2. quando já não há mais essa relação afetiva da qual me refiro, mas restos de rancor e mágoa de uma relação afetiva mal-sucedida.

Pois bem…

Primeiro, faça o exercício:

a. Por qual motivo você iniciou o seu estudo musical (ou do instrumento específico)? Você lembra?
Se você não se lembra, talvez seja a parte mais triste do processo, e a chave para melhorar a sua relação com a música.

b. Agora, lembre-se do momento no qual você decidiu fazer dessa relação a sua profissão. Você consegue lembrar o motivo? A sensação? Se você ainda não decidiu ser profissional da música, mas você não consegue imaginar sua vida sem a música, ou sem o seu instrumento musical, você consegue lembrar quando isso passou a ser de extrema importância pra você? O motivo? A sensação?

Essas perguntas são apenas um guia para a sua leitura deste post, vai trazer para você o seu contexto, o seu motivo, enquanto compartilho com você meus pensamentos.

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O começo

O que me levou a estudar música, foi o amor pelo meu pai, e a sua paixão pela música. Meu pai sempre foi um apaixonado pela música, e por ele, acabei crescendo em um ambiente musical. O que eu via no meu pai era música!

Desta maneira comecei cantando. Lembro de quando a minha mãe me perguntou se eu queria estudar música, e assim fui por diversos universos musicais, diversos instrumentos.

Quando conto para as pessoas sobre como acabei na flauta doce (pasmem! ela não foi o meu primeiro instrumento), todos dizem: ah! foi a flauta doce quem te escolheu!

Então, escolhida eu estava. E essa relação foi construída muito lentamente, pouco a pouco, sem grandes amores ou motivações. Confesso que na adolescência rolou até uma cartada final de minha mãe, pois eu não estava muito motivada para praticar em casa.

Quando percebi que não poderia viver sem ela (a flauta doce)? Quando pela primeira vez ouvi um acorde de um cravo muito bem tocado, simultaneamente com uma viola da gamba muito bem tocada, em uma espera por mim a produzir meu primeiro som! AH! inesquecível pra mim! Foi ali que decidi que jamais deixaria aquele instrumento, e que aquela sensação sublime de felicidade e beleza estaria presente por toda a minha vida.

O Percurso

O que foi importante para chegar até ali? O que foi indispensável para tudo isso acontecer? Pessoas que estivessem atentas à construção dessa minha relação. Meus pais, fazendo com que eu não desistisse. Meus professores, tratando de me inspirar e me orientar.

Durante a minha graduação, foi esse sentimento inicial que comentei que me inspirou. Nas dificuldades, no cansaço, na loucura e na vontade de fazer, de realizar também.

Esse sentimento também norteou a minha busca pela pedagogia do instrumento. Quando percebi esse mesmo sentimento nos alunos educados pelo Método Suzuki, busquei minha formação através do método da língua materna.

Muitos músicos que conheço ficam espantados quando vêem alunos Suzuki tocando, e sempre dizem: “nossa, eles gostam de tocar!”

Essa afirmação me soa sempre como piada. Contudo, os mesmos músicos que a dizem, não percebem a profundidade de sua fala. Sim!, os alunos Suzuki amam tocar seus instrumentos. E vocês, não mais!? Isso é muito triste. Reconhecer no outro uma alegria, uma felicidade perdida. Pois não acredito que um músico tenha se tornado músico sem essa relação afetiva, sem conseguir responder de maneira ‘afetada’ (com afeto) as perguntas que fiz na primeira parte deste texto.

Mas voltando aos alunos Suzuki, sim eles gostam de tocar. A relação que eles constroem com o instrumento musical é uma relação afetiva, de alegria, de compartilhar música com as pessoas, uma relação que inspira! E essa relação vai sendo construída pouco a pouco, pela inspiração e orientação dos professores e pelo apoio e motivação dos pais. Lembram do meu começo? Então… não fui aluna Suzuki. Mas agora, começo enxergar talvez a fonte da relação afetiva, e o porquê de ter encontrado parte de mim no Método Suzuki.

Os tropeços

Nos momentos de dificuldades em todas as minhas atividades, o que me salvou foi exatamente me lembrar: Por que estou aqui? O que me levou a fazer isso? E sempre que me recordava da sensação no momento da escolha, isso fortalecia a minha relação com o instrumento, com a música. Essa sensação afetiva, positiva, me inspirava continuar.

Quando encontro um aluno com extrema dificuldade, ou que ainda não encontrou a sua rotina, que ainda não estabeleceu uma relação afetiva com o instrumento, lembro da minha sensação e tento orientá-lo a buscar essa relação positiva.

Atualmente, alguns alunos que estão comigo, já encontraram essa relação positiva, afetiva com o instrumento. E isso não quer dizer que eles tenham feito uma escolha profissional. Tenho alunos que carregam a flauta doce para todos os lugares. Acordam, pegam a flauta e sentam à mesa para o café da manhã, colocando o instrumento do lado. Ontem, mesmo, vi uma menina de 2 anos em um restaurante colocando uma boneca e um bichinho de pelúcia na mesa para o almoço. No mesmo momento lembrei dos meus alunos que colocam a flauta doce neste lugar afetivo.

Tenho outros alunos que não conseguem parar de tocar. Tocam o tempo todo. Se a flauta está na mão, é impossível parar de tocar. Uma energia musical que contagia. Tenho outros alunos que mantém essa relação bem guardada, ainda não é extrínseca ou visível, como quem não quer deixar sair, ou deixar ver. É pessoal, para mim. Mas falta pouco para desabrochar.

Quando essa relação afetiva aparece no começo, fruto de um processo saudável, tranquilo, e inspirador de educação musical, ela se mantém, para sempre, mesmo com os tropeços da vida: sucesso! É isso que tenho visto nos alunos Suzuki pelo mundo.

Pessoas que amam fazer música, dispostas a criar, tocar, ensaiar, porque aquilo que as move é o prazer da música, da relação afetiva que construíram com seus instrumentos. Mesmo quando uma atividade for cansativa, mesmo quando o dia for difícil, mesmo quando estivermos tristes por algum motivo, essa relação nos ajuda a seguir.

Quando essa relação aparece tardia, com os tropeços da vida, é muito fácil se tornar uma relação negativa: fracasso! Essa relação não bem-sucedida eu visualizo em diversas posturas no dia a dia musical, aquelas citadas no início do texto. Professores frustrados em ensinar; músicos burocratas etc….

Enfim, se você se percebeu em algumas dessas situações, então vale a pena buscar a sua relação positiva, vale a pena salvar a sua relação com a música. E de que maneira fazer isso?

Re-construindo a relação

Primeiro: encontrando as suas respostas para as perguntas do início deste texto!

Segundo: utilizar essas respostas, e sensações para que elas te inspirem, te impulsionem para que você siga, para que você mantenha a sua relação com a música de maneira positiva.

Terceiro: saber que as dificuldades existem, mas quando gostamos muito de algo, essa relação nos faz seguir e se persistirmos, os benefícios serão muitos, inúmeros. “Sem pressa, mas sem descanso”!

Quarto: que o seu sucesso só depende de você, não depende do sucesso ou do fracasso do outro. É a sua relação.

Quinto: não espere que o reconhecimento do teu trabalho venha de outro, quem precisa reconhecer primeiro é você. Você precisa avaliar se seu trabalho é bom, se você está fazendo o melhor que pode, se você gosta realmente do processo, do resultado. Diga isso para você mesmo. E compartilhe com seus Amigos. E assim como o filósofo Leandro Karnal comenta sempre, se estes forem seus amigos, vibrarão com a sua felicidade e com o seu sucesso. Qualquer olhar diferente de uma felicidade sem fim, dirá que não reside ali uma amizade verdadeira.

Sexto: trabalhe, divulgue, tenha novas ideias, crie, mantenha seu ideal sempre vivo, ninguém vive ou trabalha feliz sem possuir um ideal nobre. Para conquistar o sucesso em sua relação com a música é preciso possuir três qualidades que são conquistadas ao longo da vida: “1. alta sensibilidade musical; 2. desempenho musical superior; 3. e um caráter nobre” (S. Suzuki, 1983).

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