A música é a chave do sucesso?

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Encontrei este artigo no site do New York Times, e decidi traduzir e publicá-lo, com o link para a fonte.

http://www.nytimes.com/2013/10/13/opinion/sunday/is-music-the-key-to-success.html

Opinião:
A música é a chave do sucesso?

por JOANNE LIPMAN – tradução Gustavo de Francisco
Publicado em 12 de Outubro de 2013

 

CONDOLEEZZA RICE estudou para ser pianista concertista. Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (Banco Central Americano), foi clarinetista e saxofonista profissional. O multimilionário Bruce Kovner é pianista e estudou na Juilliard.

Ana Parini
Ana Parini

Muitos estudos apontam uma correlação entre o estudo de música e o desempenho acadêmico. Mas e sobre como o estudo sério de música pode ter relação ao sucesso em outras áreas do conhecimento?

Esta conexão não é uma coincidência. Eu sei por que eu perguntei. Fiz esta pergunta aos profissionais do alto escalão das indústrias de tecnologia, do mercado financeiro ou de mídia, todos que haviam se dedicado seriamente à música (muitas vezes desconhecidos) antes de se tornarem o que são hoje. Quase todos eles fizeram uma conexão entre o estudo da música e o próprio sucesso profissional.

Este fenômeno se estende além da associação entre a música e a matemática. Surpreendentemente, muitos destes profissionais de alto desempenho me disseram que a música abre caminhos para o pensamento criativo. E suas experiências sugerem que o estudo de música também desenvolve outras habilidades: colaboração, a habilidade de ouvir, uma maneira de pensar que consegue unir idéias contrárias ou diferentes, o poder de se concentrar no presente e também no futuro simultaneamente.

Será que o estudo de música vai transformar seu filho num Paul Allen, o bilionário co-fundador da Microsoft (guitarrista)? Ou em um Woody Allen (clarinetista)? Provavelmente não. Estes são empreendedores singulares. Porém a maneira que estes e outros visionários que eu comentei tratam a música é intrigante. Assim como a maneira que eles aplicam as lições musicais de concentração e disciplina em novas maneiras de pensar e se comunicar – e até mesmo na solução de problemas.

Procure atentamente e você encontrará músicos no alto escalão de quase todas as indústrias. Woody Allen se apresenta semanalmente em uma banda de jazz. A jornalista de televisão Paula Zahn (cellista) e o chefe da NBC e correspondente da Casa Branca Chuck Todd (trompista) cursaram o ensino médio com bolsas de estudo de música; a Andrea Mitchell da NBC estudou violino para ser musicista profissional. Mr. Allen da Microsoft e o investidor de riscos Roger McNamee, ambos possuem uma banda de rock. Larry Page, co-fundador do Google, tocou saxofone no ensino médio. Steven Spielberg é clarinetista, e é filho de um pianista. O ex-presidente do Banco Mundial James D. Wolfensohn tocou cello no Carnegie Hall.

“Isso não é uma coincidência” diz Sr. Greenspan, que desistiu do clarinete de jazz, mas ainda brinca com seu piano na sua sala de estar. “Posso falar a você como estatístico, a probabilidade disso ser mero acaso é extremamente pequena”. O cauteloso ex-chefe do FED complementa, “Isso é tudo o que você pode julgar sobre os fatos. A pergunta crucial é: por que esta conexão existe?”

Paul Allen oferece uma resposta. Ele diz que a música “fortalece sua confiança na habilidade de criar”. Sr. Allen começou a tocar violino quando tinha 7 anos e mudou para a guitarra quando era adolescente. Ainda nos primeiros dias da Microsoft, ele pegava sua guitarra no fim da maratona programando dias a fio. A música era o análogo emocional ao seu trabalho diário, cada qual canalizando um tipo diferente de impulso criativo. Em ambos, ele diz, “alguma coisa está te empurrando para olhar além do que existe e fazendo você se expressar de uma nova maneira”.

Sr. Todd diz que existe uma conexão entre os anos de prática e competição, e sobre o que ele chama de “busca pela perfeição”. O executivo veterano da propaganda Steve Hayden dá os créditos a seu passado como cellista ao seu comercial da Apple “1984” retratando uma rebelião contra um ditador. “Eu estava pensando em Stravinsky quando eu tive esta idéia” ele diz. Ele acrescenta que seu passado como cellista o ajudou a trabalhar colaborativamente: “Tocar em grupo te ensina, quase literalmente, a tocar bem com os outros, e saber quando você deve solar [liderar] e quando você deve acompanhar [seguir]”.

Para muitos dos altos empreendedores que eu conversei, a musica funciona como uma “linguagem escondida”, como o Sr. Wolfensohn a chama, que aumenta a habilidade de conectar idéias diferentes ou mesmo contraditórias. Quando ele dirigia o Banco Mundial, Sr. Wolfensohn viajou para mais de 100 países, onde geralmente assistia apresentações locais (e ocasionalmente até tocando junto, com um cello emprestado), fato que o ajudou a entender “a cultura das pessoas, diferente do seu faturamento”.

É neste contexto que a conexão tão discutida entre matemática e música mais aparece. Ambas são meios de expressão. Bruce Kovner, o fundador do fundo multimercado da Caxton Associates e presidente do conselho da Juilliard, diz que ele vê similaridades entre tocar piano e em estratégia de investimentos; como ele diz, ambos “estão relacionados com reconhecimento de padrões, e algumas pessoas estendem estes paradigmas entre diferentes sentidos”

Ambos Sr. Kovner e o pianista Robert Taub descrevem um tipo de sinestesia – eles percebem padrões de uma maneira tridimensional. Sr. Taub, que ganhou fama pelas suas gravações de Beethoven e então fundou uma empresa de software voltado à música, MuseAmi, diz que quando ele toca, ele pode “visualizar todas as notas e suas inter-relações”, uma habilidade que traduz mentalmente como se estivesse construindo “conexões múltiplas entre muitas esferas”.

Para outros com quem conversei, a paixão pela música é mais notável que seu talento. Woody Allen me disse abruptamente, “Eu não sou um músico comprometido. Eu sou muito ocupado pelo fato de participar [como ator] de meus filmes”.

Sr. Allen vê a música como diversão, desconectada do seu trabalho diário. Ele se caracteriza como “um jogador de tênis de fim de semana, que vai ao clube uma vez por semana para jogar. Eu particularmente não tenho bom ouvido ou um senso rítmico de tempo. Na comédia, eu aprendi a ter um bom instinto para o ritmo. Na música, não tenho, realmente”.

Ainda assim, ele toca clarinete pelo menos meia hora todos os dias, por que quem toca instrumento de sopro perde a embocadura (posição da boca) se não tocarem: “Se você quer tocar, você deve praticar. Eu tenho que tocar todos os dias para ser tão ruim como eu sou”. Ele toca em público regularmente, inclusive fazendo turnês internacionais com sua banda de jazz New Orleans. “Eu nunca imaginei que estaria tocando em salas de concerto de outros países para 5000 ou 6000 pessoas”, ele diz. “Devo dizer, que inesperadamente, isso enriqueceu minha vida tremendamente”.

Música traz equilíbrio, explica Sr. Wolfensohn, que começou a tocar cello quando adulto. “Você não está tentando ganhar nenhuma corrida, ou ser o líder disto ou daquilo. Você está curtindo por causa da satisfação e alegria que a música te traz, que é completamente sem relação com o seu status profissional”.

Para Roger McNamee, conhecido pelo seu investimento no início do Facebook, “música e tecnologia têm convergido” ele diz. Ele se tornou expert no Facebook usando a rede social para promover sua banda, Moonalice, e agora está se dedicando em filmar e disponibilizar seus shows em tempo real pela internet. Ele diz que músicos e profissionais de alta performance compartilham “a necessidade quase desesperada de mergulhar fundo”. Esta capacidade de obsessão parece unir os músicos e profissionais de alta performance em qualquer campo de atuação.

Sra. Zahn lembra de passar quatro horas por dia “enterrada em salas de estudo apertadas tentando aperfeiçoar uma frase” em seu cello. Sr. Todd, agora com 41 anos, contou em detalhes sobre seu recital solo aos 17 anos de idade quando teve a segunda melhor nota ao invés da melhor nota – enquanto ele continuava tocando a primeira trompa na Orquestra Estadual da Florida.

“Eu sempre acreditei que a razão pela qual eu estava à frente era por trabalhar mais que as outras pessoas”, ele diz. É uma habilidade aprendida “tocando aquele solo mais de uma vez, trabalhando aquela pequena sessão mais uma vez”, e isso se traduz em “trabalhar repetindo alguma coisa de novo e de novo, com checagem dupla ou mesmo tripla”. Ele acrescenta, “Não existe nada como a música para te ensinar que eventualmente se você trabalhar duro, você melhora. Você pode ver os resultados”.

Aqui uma observação que merece destaque em um tempo no qual a música como uma carreira séria – e a educação musical como um todo – está em declínio neste país.

Considere as qualidades que estes grandes empreendedores disseram que a música ajudou a desenvolver: colaboração, criatividade, disciplina e a qualidade em reconciliar idéias conflitantes. Todas são qualidades que não são encontradas facilmente na vida pública. A música pode não te tornar um gênio, ou rico, ou mesmo uma pessoa melhor. Porém, ela te ajuda no treinamento de pensar diferente, de entender pontos de vistas diferentes – e o mais importante, a ter prazer escutando.

Joanne Lipman é co-autora, junto com Melanie Kupchynsky, do livro “Strings Attached: One Tough Teacher and the Gift of Great Expectations.”

Uma versão desta matéria aparece na edição impressa em 13 de Outubro de 2013, na página SR9 da edição do New York com o título “A música é a chave do sucesso?”

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1 Comentário para "A música é a chave do sucesso?"

  1. Gustavo, parabéns pelos seus artigos, traduzidos ou não são muito bons. Ri muito com o artigo da viagem para Minas. “Que aventura”!!!, ou “Que loucura”. Vocês passaram por vários testes ali: perseverança, compromisso, paciência, amor ao que faz. Enfim… pode-se enumerar ainda muitas outras virtudes que estavam presentes naquele momento. Abraços aos dois (Renata e você), e que Deus continue os abençoando.

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