flautas doces modernas

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Oi Pessoal,

Tenho visto um grande movimento de construtores fazendo pesquisas e começando a vender flautas doces que não são cópias de instrumentos históricos, ou ao menos, não têm esta proposta em mente. Recentemente experimentei alguns destes instrumentos e gostaria de discutir as impressões sobre estes instrumentos e também sobre este movimento.

Primeiramente devo citar as flautas quadradas ou “square recorders” que usamos já há algum tempo no Quinta Essentia. Essas flautas foram desenvolvidas pelo construtor Joachim Paetzold (Alemanha) em meados da década de 60, e fabricada pelo seu sobrinho Herbert Paetzold, e atualmente produzida por Jo Kunath (maiores informações em https://www.kunath.com). A flauta mais aguda desta família é a baixo ou basseto em Fá, e a mais grave é a subcontrabaixo em fá (2 oitavas abaixo da flauta baixo). A idéia dessas flautas está nos tubos ‘quadrados’ do órgão, que muitas vezes são construídos em madeira e se encontram no interior do instrumento, e são feitos desta maneira para que o custo seja menor comparado aos tubos de estanho ou cobre que são visíveis. Nosso amigo Paetzold pensou que poderia fazer flautas usando o mesmo princípio, e obteve um grande sucesso. As flautas tem muito mais volume do que as flautas renascentistas da mesma tessitura, além de ter uma resposta de articulação excelente. Porém há um problema, com relação a esses instrumentos, que não está na hora de tocar, mas na hora de transportá-los, pois são grandes e pesados (mas isso já é esperado em instrumentos tão graves).

Um outro trabalho exemplar que venho contar em primeira mão é sobre a flauta doce Eagle, foi desenhada pela Adriana Breukink (visite http://www.adrianabreukink.com/Home.html). Esta é uma flauta contralto, com uma chave para alcançar a nota mi grave, e embora seja baseada em uma flauta renascentista com furos grandes e corpo cilíndrico (não cônico como as barrocas), tem o timbre muito diferente das flautas renascentistas ou barrocas. O grande diferencial desta flauta é a potência sonora. Ela pode tocar em conjunto com violino, piano ou outros instrumentos modernos sem que os outros músicos precisem tocar mais piano para equilibrar o grupo, ou até mesmo tocar numa orquestra moderna como solista sem a necessidade de amplificação. Selecionei algumas fotos que fiz em seu ateliê para que conheçam melhor este instrumento. Reparem que as cabeças são diferentes, experimentamos cerca de 15 cabeças diferentes que ela usou em sua pesquisa até achar o “voicing” mais adequado, que possui a janela feita de metal. Até agora somente cerca de 30 flautas Eagle foram vendidas, mas em breve serão fabricadas pela marca Küng (visite http://www.kueng-blockfloeten.ch/en/index.php)

a flautista Renata Pereira e a flauta doce Eagle

Ainda da Adriana, tenho a dizer sobre outras flautas. Ela também constrói o que ela chama de “dream recorders” ou “sonho de flautas”. Ela fez estas flautas buscando um instrumento com todas as vantagens da flauta barroca (afinação mais estável, dedilhado mais amigável) somadas às vantagens da flauta renascentista (som potente, articulação mais presente, graves com bastante volume). Existem “dream recorders” soprano, alto, tenor e baixo, e estas flautas são produzidas pela Mollenhauer (visite http://www.mollenhauer.com/), mas a Adriana continua produzindo sobre encomenda em madeira melhor do que as de fábrica. A soprano e contralto feitas pela Adriana são muito melhores que as de fábrica; já a tenor e baixo têm qualidade superior mas não são tão diferentes das de fábrica.

A construtora de flautas doces Adriana Breukink e sua mais recente pesquisa: a flauta doce Eagle

Pensam que acabou? Não! A Adriana tem um outro projeto maior (na verdade, beeem maior) mas que só foram produzidas 3 flautas como essa até agora (uma dela usada pelo Bassano Recorder Quartet, uma do Amsterdam Loeki Stardust Quartet, e outra do Royal Wind Music), e ela acaba de receber a 4.a encomenda (do Flanders Recorder Quartet). Eu estou falando da sub-contrabaixo em Si bemol (vejam a foto na abertura da página dela), que parece ser uma flauta renascentista, mas que ela desenvolveu a partir de uma sub-baixo em fá. Historicamente existe uma flauta tão grave como esta, mas a flauta histórica é na verdade uma flauta sub-baixo em Fá com uma extensão, com chaves para serem tocadas por outra pessoa, ou com os pés, ou de alguma outra forma (nada cômodo, não acham?). No site dela tem uma explicação, deste instrumento, melhor que a minha, vale a pena verificar. Experimentei a flauta, ela é algo mais que uma bazuca para tocar, pois não é possível tocar mais que 3 ou 4 notas sem respirar, parece que todo ar dos pulmões é sugado para dentro da flauta. Vejam um vídeo dela tocando: http://www.youtube.com/watch?v=aQFqYbaiG1w

Mais informações também sobre o charme da BIG BABE assim chamada pelo consort Royal Wind Music na Holanda. http://www.facebook.com/BigBabeRWM

Existem também alguns fabricantes que investiram para produzir seus próprios instrumentos modernos. A Moeck tem as flautas Ehlert (visitem http://www.moeck.com/index.php?id=29&L=1) soprano, alto e tenor, da qual tive a oportunidade de experimentar em algumas lojas de instrumentos na Europa. Embora a Moeck venda estes instrumentos como flautas modernas, em relação à sonoridade, elas são bem parecidas com as flautas barrocas, exceto por alguns dedilhados na 3.a oitava que são facilitados e não precisam do uso da perna para tampar o furo de baixo.

Já a Mollenhauer está um passo à frente em relação às outras marcas, pois possui 2 modelos de flautas modernas: as flautas Helder alto e tenor, e as flautas modernas tarasov-paetzold soprano e alto. As flautas tarasov-paetzold ou “harmonic recorders” são flautas com corpo cilíndrico que garantem uma maior uniformidade de timbre em todo instrumento e graves mais potentes, e conforme diz no site estas flautas possuem “harmônicos afinados” e isso possibilita tocar até 3 oitavas completas na flauta contralto, mas com um dedilhado todo especial na 3.a oitava. Porém o grande diferencial está mesmo nas flautas helder: estas flautas possuem o bloco e o teto móvel, de forma que é possível ajustar a altura do bloco durante a música (basta apertar os lábios ou girar um parafuso), ajustar o tamanho do canal de ar, 3 opções para trocar o material do teto: cerâmica (som bem diferente e “moderno”), grenadilla (som potente com excelente projeção) e rosewood (som mais parecido com flautas barrocas). Além disso possuem extensão para o mi grave na contralto e si grave na tenor, uma chave para tocar piano sem precisar de dedilhados alternativos, e também alcança 3 oitavas inteiras. Estas flautas helder são praticamente um outro instrumento diferente da flauta doce que já sabemos tocar, e temos que re-aprender a tocar se quisermos nos aventurar no mundo helder; a maneira de assoprar é bem diferente, e algo que me deixou bastante curioso: não existem variações de timbre entre as notas, mesmo aquelas de forquilha que costumam ter o som velado, a flauta inteira tem som uniforme como os instrumentos modernos (flauta transversal, oboé, etc).

Devo comentar de mais um construtor que infelizmente não pude experimentar os instrumentos, mas que está causando um grande impacto no mundo flautístico na Europa. Ele é chamado Ernst Meyer, e está fabricando flautas barrocas, com cara de flautas barrocas, mas com um ajuste no canal e no voicing que tornam as flautas um “canhão” conforme me contaram. Muitos flautistas como Pierre Boragno estão vendendo flautas excelentes como as feitas pelo Morgan (um famoso construtor já falecido) para comprar flautas do Meyer. Embora as flautas dele ainda sejam flautas “barrocas”, elas têm uma concepção de som bem diferente da concepção da música historicamente orientada.

Termino aqui o meu relato sobre os instrumentos, mas gostaria de frisar que fico muito feliz em ver que a música continua viva, que existem pessoas buscando outras características, outras possibilidades para nosso instrumento, e isso torna a flauta doce cada vez mais interessante. Isso abre espaço para um novo repertório, abre espaço para novos compositores, e traz algo novo para o público o que é ainda mais importante.

P.S. Existe um flautista e gambista chamado Jan Goorissen que desenvolveu uma viola da gamba moderna feita em fibra de carbono, e uma viola da gamba elétrica. Ele possui uma loja de flauta doce excelente em Arnhem/Holanda que tem muitas flautas a pronta entrega e que podem ser experimentadas antes de comprar, quem estiver viajando pelos arredores de Amsterdam ou Bruxelas vale a pena pegar um trem e visitá-lo (não esqueçam de ligar antes para marcar). O site é http://www.blockfluteshop.com/

Grande abraço
Gustavo
www.quintaessentia.com.br

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