“Estimulamos as crianças a ver o trabalho com prazer”. S. Suzuki (1898-1998)

24/

09/18

Estava para escrever este relato na semana passada. Mas, semana normal de aulas, ensaios e concerto, é sempre corrida e acabei não conseguindo fazer.

Passei por uma situação com esta aluna há 3 semanas que estou acostumada a vivenciar como professora Suzuki. A prática diária de um instrumento musical é tão importante e tão poderosa para a educação e formação do caráter de uma criança, e mesmo assim, as pessoas desconhecem essa grandiosidade.

Relacionada à prática diária de um instrumento musical temos três questionamentos importantes. No caso das crianças, estes questionamentos, comentários ou pensamentos, são sempre oriundos dos pais, adultos, é claro!

 

  • Tarefa: o peso desta responsabilidade para uma criança. Uma criança muito pequena não tem que ter tarefas, tem que brincar!;
  • Motivação (em relação à música): você tem que ter vontade de fazer, nasce com você. Se você não demonstra vontade de fazer, sozinho, você não nasceu para isso!;
  • Excelentes resultados: quando uma criança pratica um instrumento musical diariamente e conquista excelentes resultados, essa criança não brinca, não tem infância.

Pois bem, vou falar um pouquinho sobre isto. Não tenho filhos, mas tenho muita experiência ensinando flauta doce para crianças, desde 1998. Já trabalhei com crianças de nacionalidades diferentes, de condições sociais e ambientais muito diferentes, com famílias extremamente diferentes, com crianças incrivelmente!!! diferentes.

 

Há 3 semanas, esta aluna (da foto) chegou na aula com um comportamento diferente, uma energia diferente do comum. Olhei pra mãe, que sempre a acompanha em todas as aulas, e a mãe também estava com um comportamento diferente do comum. Ela me olhava como quem queria me dizer algo, e ao mesmo tempo, olhava para a filha como quem estivesse fazendo uma pergunta, um pedido.

A pergunta era: – Você conta ou eu conto para a professora? Mas, nada foi dito.

 

Eu perguntei então:
– Como foi esta semana, aconteceu algo diferente?
– Vocês conseguiram praticar o instrumento e as tarefas que eu pedi?

 

A mãe respondeu:
– NADA!
E seguiu dizendo:
– Eu tentei, mas …
A menina interrompeu dizendo:
– Mas tinha muita gente em casa, eu queria fazer outras coisas…

E a postura da menina era de decepção, talvez.
Um ombro baixo, um olhar emotivo, uma vontade de reclamar e até colocar a culpa daquele sentimento todo em alguém.

Talvez esta seja uma cena comum de aula de instrumento, quando o professor pergunta para o aluno, antes de começar a aula, se ele cumpriu o que era responsabilidade dele. Mas, preciso explicar que, eu não teria feito esta pergunta antes da aula iniciar, se eu não tivesse ‘lido’ os olhares entre mãe e filha.

Então, expliquei para a aluna novamente o que fazer e como fazer. Disse para ela que no meu dia, na minha semana, também é difícil praticar. E mesmo amando o meu instrumento (como eu sei que ela ama tocar flauta doce e fazer música), mesmo assim, acabamos fazendo outras coisas e quando vemos, o dia terminou e não tocamos. Por esta razão, falamos sobre fazer o que de fato é importante em primeiro lugar.
Falamos sobre organização. Falamos de prioridades, de escolhas, de estratégias, de expectativas. Enfim…. foi uma conversa leve, e que reforçou para a criança a postura da mãe. Afinal, ela sabe que a mãe tentou ajudá-la a praticar durante a semana. Mas ela, a criança, não quis.

Aqui preciso explicar que, meus alunos são crianças muito pequenas e adolescentes.
No Método Suzuki, acreditamos que todos somos capazes de aprender, e que vamos construindo passo-a-passo a aprendizagem do instrumento. Mesmo que a criança tenha 3 anos de idade e esteja iniciando no estudo do instrumento, vamos dando à ela o passo-a-passo adequado para a idade para que ela venha a construir uma aprendizagem sólida e para a vida.
Obviamente, que quando uma criança muito pequena inicia, a responsabilidade da prática diária do instrumento é dos pais e não da criança. Mesmo que a criança saiba que é importante praticar o instrumento todos os dias, ou melhor, apenas nos dias em que ela come. Ainda sim, o papel dos pais é de inserir a prática do instrumento musical no dia-a-dia da criança, de maneira divertida, leve, e produtiva.

Nosso objetivo não é ensinar o peso de uma obrigação, mas sim, criar um hábito positivo na vida da criança.

“Estimulamos as crianças a ver o trabalho com prazer”.

Talvez, nós adultos, por causa da nossa experiência pessoal e intransferível, não acreditamos que isso seja capaz, afinal trabalhamos por outros motivos, e muitas vezes, vamos para o trabalho quase arrastados, por obrigação.

Eu, tive uma outra experiência. Eu faço o que amo fazer. E por esta razão, o que Suzuki disse em relação à prática diária do instrumento musical para uma criança, e o que esse hábito pode ensinar para a vida de um ser humano, me faz tanto sentido.
Quando escuto um pai de uma criança dizer:
– Acho muito ruim uma criança de 3 anos ter tarefa de casa pra fazer!
Uma criança tem que brincar!Quando ouço este tipo de argumento, sempre penso que a TAREFA que este pai está se referindo é algo bem diferente do leve BRINCAR. Então, acredito que o que ele deseja para a criança de 3 anos, é que ela possa brincar todos os dias. Quando brincamos, nos divertimos, não vemos o tempo passar, temos prazer em algo, damos asas a nossa criatividade. Pai!, mas é exatamente esta TAREFA que estou pedindo para que vocês façam com seus filhos:

Tornem a prática diária do instrumento em casa uma grande brincadeira.
É hora de brincar de flauta doce!

E seu filho vai querer brincar todos os dias, todas as horas… e assim… vai aprender BRINCANDO!Adultos precisam saber que é possível ter experiências diferentes com situações que talvez tenham sido negativas para eles.

Não se apeguem aos termos, mas sim às ações! Observem! Vejam se de fato está sendo um peso para a criança, ou uma diversão.

Voltando para a situação que comecei a contar sobre esta aluna, que já não tem 3 anos de idade. Mas ainda é uma criança. Ela se esforçou com a ajuda da mãe, e conseguiu se organizar para praticar flauta doce durante a semana.

Resultado, depois de uma semana de prática: A aluna chegou super feliz e motivada para a aula.
Durante a aula me disse:

– Professora, a gente quando está com a flauta doce não consegue parar de tocar, né?

O que esta frase acima significa pra você, leitor?

Para mim, significa:

Pratiquei todos os dias, foi divertido, gostoso. Consegui perceber que agora está ficando mais fácil, tudo está fazendo sentido. Estou percebendo que sou capaz de fazer isto.
Motivação pura! Alegria! Prazer!

Esta menina aprendeu através da prática do instrumento que ela é capaz. E esta talvez seja a chave da auto-estima e da felicidade. Saber que você é capaz de fazer qualquer coisa, faz com que você siga em frente, mesmo em momentos de dificuldade. A mãe desta menina sabe disto, e por isso, tem sido tão parceira do trabalho. O que ela quer, é o melhor pra filha dela. É a felicidade da filha.

Os pais que reclamam da tarefa, que querem algo mais ‘leve’, na verdade não sabem de duas coisas:
  • desconhecem o real significado do desenvolvimento do caráter de um ser humano e da busca da felicidade, do que realmente importa;
  • e não sabem que há um caminho para aprendermos a encontrar o prazer nas coisas mais simples e nas coisas que fazemos repetidas vezes.

As crianças são especialistas nesta última questão.

Na prática da semana passada, a aluna aprendeu a se organizar. Se descobriu capaz. E o sucesso foi tão grande que ela acreditou ser capaz de aprender uma música nova sozinha.

A mãe compartilhou comigo esta foto, das anotações da menina, de uma música que ela ouviu e conseguiu descobrir sozinha todas as notas para conseguir tocar.

 

“Sucesso gera Sucesso” disse Suzuki.

Aqui, o sucesso da prática gerou o sucesso de conseguir fazer algo novo. A rotina, o hábito nos presentearam com o prazer de alcançar um objetivo. Saber que você é capaz de conquistar o que você deseja, se você se organizar e trabalhar para isso, foi o que esta aluna aprendeu esta semana. Mais do que tocar flauta doce, mais do que fazer música, foi um aprendizado para a vida. Agora, como professora, tenho a certeza de que, sempre que eu mencionar esta prática, esta experiência para esta aluna, ela saberá com sua memória corporal e afetiva, do que eu estou falando.

Isto é de fato aprendizagem, afinal obtivemos uma mudança significativa de comportamento. E isto é aprender um instrumento musical através do Método Suzuki.

Então, para os adultos que estão lendo este texto, tenho alguns pedidos a fazer:

  • não fujam de criar bons hábitos desde cedo nos seus filhos com o receio de que eles sofram, pois eles sofrerão muito mais se não tiverem passado por estas experiências;
  • saiba que é possível aprender brincando, você só precisa aprender o caminho para isso;
  • não julgue e não veja com olhos preconceituosos, uma criança que obtém excelentes resultados na música, pois se ela obteve estes excelentes resultados brincando, ela aprendeu o caminho para a felicidade. E não é isso que queremos? Todos nós, seres humanos?

#wearesuzuki

Por Renata Pereira
Flautista
Professora Suzuki de flauta doce
Doutora em Música pela USP – Universidade de São Paulo
Teacher trainer (flauta doce/recorder) da European Suzuki Association e da Suzuki Association of the Americas
www.centrosuzuki.com.br

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